Brasil, a república dos data centers

Terça-Feira, 02/07/2013 às 12h21

Recém-chegada ao mercado brasileiro, a Credz, bandeira de cartão de crédito que iniciou suas operações no País em outubro de 2012, contratou a Tivit como parceira para o ambiente de administração de cartões de crédito, BI e integração dos parceiros de TI.

A companhia começou a se estruturar em 2011 e tem focado na emissão de cartões a partir de parcerias com redes varejistas de médio porte, na área de confecção e moda, com sede no estado de São Paulo. O contrato de Gestão de Infraestrutura de TI contempla o armazenamento em nuvem da plataforma de análise de crédito e prevenção à fraude. Um serviço crítico para a Credz, pois o cartão de crédito é emitido diretamente nas lojas para ser usado no momento da compra.

Por se tratar de um projeto em ambiente crítico, a Tivit fornece alta disponibilidade e disaster recovery em seus dois data centers, em São Paulo e no Rio de Janeiro, ambos com 99,999% de disponibilidade. A empresa também fornece toda a infraestrutura de TI, bem como a gestão e a  governança que garantem o fluxo da análise de crédito.

“Com nossa solução, a Credz tem a flexibilidade da nuvem sem que, para isso, seja preciso abrir mão da camada de gestão”, afirma Armando Lins Netto, vice-presidente de Gestão de TI (ITM) da Tivit.

Segundo José Renato Borges, presidente da Credz, o contrato foi fechado com a Tivit devido, principalmente, à sua forte atuação na área financeira, expertise em missões críticas e também por hospedar soluções de negócios de parceiros importantes como a Cielo. “Nos dias de hoje, uma administradora de cartões tem que ter a tecnologia da informação como a espinha dorsal de sua estratégia de negócio”, declara Borges.

Projetos como os da Credz têm se tornado cada vez mais comuns no Brasil por força da alta oferta de serviço de cloud computing e, também, porque, aos poucos, vem se vencendo o medo da terceirização de processos críticos e da compra de serviços baseados em nuvem.

Etapas
Segundo Bruno Tasco, analista sênior da Frost & Sullivan, a terceirização permite ao executivo de TI se dedicar à atividade fim da empresa e, consequentemente, aplicar esforços em inovação. “Os provedores de serviços defendem a visão de que as empresas ganham produtividade e eficiência ao terceirizar a infraestrutura, mas ressaltam que é preciso haver maturidade da demanda. Ou seja, as empresas transferem aplicações menos críticas, como email, para depois evoluir para aplicações mais complexas”, diz Tasco.

Nesse processo, as pequenas e médias empresas foram as primeiras a vencer a barreira do receio de terceirizar aplicativos, e, mais recentemente, estão sendo seguidas pelas grandes corporações. Mas, neste novo universo, os motivos para esse acontecimento dizem mais respeito à migração da produtividade e à liberdade do CIO para a criação de novas oportunidades de negócio do que à redução de custos e ganho de infraestrutura que orienta as decisões das PMEs.

Dona de vários hospitais no País, a Unimed, por exemplo, tem o serviço de diagnóstico por imagem como um caso de referência da Ativas – provedor de data center. “Ligamos a infraestrutura ao serviço de diagnóstico do cliente e conseguimos apresentar relatórios qualitativos, apontando a indisponibilidade do serviço e a causa. Isso permite ao diretor de TI falar com o diretor financeiro sobre negócio e alertar para os riscos de ficar com o sistema inativo diminuem”, resume Alexandre Sifert, presidente da Ativas.

Papel do consumidor
Tasco, da Frost & Sullivan, destaca que o Brasil está em processo de migração das compras compostas essencialmente por hardware para um ambiente mais orientado a software e serviço, e acredita que as compras de máquinas ficarão concentradas nos provedores de serviços.

Para ele, tanto o consumidor quanto o modo como as empresas estão tratando o novo relacionamento com o mercado sofrem forte influência neste novo cenário, pois causa uma explosão de dados – big data, altamente estimulada pela mobilidade e pelo aumento da geração de vídeos. “Esses movimentos fazem dos data centers uma oferta pujante”, comenta.

Algo com o que Sifert, da Ativas, concorda: “mais do que nunca, o cliente quer serviço. Hoje, há quatro grandes forças ditando o ritmo do mercado de TI – cloud, big data, mídias sociais e mobilidade”, descreve. Uma tendência que leva as principais economias globais, inclusive o Brasil, a avaliarem grandes projetos de instalação de data centers.

“O mercado está demandando muito, até porque a maioria das empresas no Brasil tem data centers com mais de sete anos, enfrenta problemas com o fornecimento de energia e tem dificuldade de fazer virtualização”, emenda Flavio Duarte, gerente de data center da IBM Brasil.

Política pública
Mesmo fora deste perfil de grande economia e voraz consumidor de serviços, o Chile conquistou o direito de ter instalado um data center do Google. O que motivou, inclusive, o Brasil a pensar em um projeto nacional para atrair investimentos nesta área. 

À época do anúncio de construção do data center da Google, em setembro de 2012, Carlos Eduardo Calegari, analista sênior do Mercado de Software da IDC Brasil, afirmou que a chegada de um data center de uma empresa mundial em solo nacional, a exemplo da Amazon Web Services (AWS), seria fundamental para a economia. “Temos condições de ter outros centros de dados por aqui, e nosso mercado é maior do que o chileno”, argumentou.

Apesar da decisão da Google, as expectativas de tornar o Brasil um hub de data center para a América Latina seguem com euforia, já que a expectativa é que o mercado de serviços de data centers na região continue crescendo, mesmo se a economia não seguir o mesmo ritmo.

A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) tem encabeçado a iniciativa e encomendou, junto à Frost & Sullivan, um estudo sobre como o Brasil deve atuar na  questão dos data centers. 

A Frost & Sullivan estima que o mercado de serviços de data center – que atingiu um total de US$ 2,3 bilhões em 2012 – cresça 9,6% por ano até 2017 e alcance US$ 3,6 bilhões, na América Latina. E como líder regional em TIC, com 58,5% de participação em serviços de data center em 2012, podendo chegar a 59% até 2017, o Brasil se tornou a “bola da vez”, segundo os analistas.

Isso porque lidera demandas altamente dependentes de infraestrutura de processamento e armazenamento, como big data, cloud e mobilidade, que exigem alto desempenho para administrar grandes volumes de informação.

“Os investimentos em TI não só estão aumentando, como ajudando as empresas a se posicionar no mercado como provedores de serviços de valor agregado”, diz Mauricio Chede, analista de tecnologia da Frost & Sullivan.

“Ficamos preocupados porque as nuvens serão formadas e o Brasil corre o risco de se perder no caminho, caso nossos data centers não sejam competitivos em relação, por exemplo, àqueles instalados em Miami (EUA)”, diz Nelson Wortsman, diretor de Convergência Digital da Brasscom.

A pesquisa mostra que grandes países do mundo estão criando políticas específicas para desenvolvimento desse setor, caso dos Estados Unidos, que criou o projeto Cloud First e pretende consolidar 1500 data centers em 800 instalações. E, como potencial, indica que o Brasil representa 58% do mercado de serviços de data centers da América Latina, com fortes chances de se tornar o centro regional de computação em nuvem.

“O total de empresas que terceirizam serviços de data center nos EUA é de 50%. Aqui ainda temos 10% no data center e 90% em casa”, cita Eduardo Carvalho, presidente da Alog, ao comentar o potencial de crescimento desses serviços no país. 

Terceirização, uma tendência
Outra alavanca para os data centers no Brasil é o fato de que os CIOs, segundo a pesquisa, devem terceirizar processos de tecnologia, aplicações e infraestrutura, o que pode resultar em redução de custos, algo que, segundo a instituição, demonstra um caminho sobre o novo papel do executivo de TI, mais estratégico e alinhado com negócios da empresa.

Entre as vantagens financeiras dessa terceirização a pesquisa destaca as chances de transformar CAPEX em OPEX, uma vez que os custos internos de manutenção da infraestrutura de TI estão aumentando devido à complexidade; concentração no core business da empresa, alavancando receitas e novas oportunidades de negócios, agregando valor para os clientes.

Mas o otimismo em relação a possibilidade de o Brasil se tornar um hub regional de data center enfrenta dois grandes problemas: o custo Brasil e a disponibilidade das redes de telecomunicações e de energia elétrica.

Essa foi uma das constatações das empresas que participaram do painel “A desintegração do hardware – virtualização e cloud computing”, durante o evento TIC Floripa, patrocinado pela Dígitro, em Florianópolis, no início de maio.

Estiveram no debate Luiz Gustavo Schedel, da Websolute; Alex Gilkas, da Locaweb; e Nelson Wortsman, da Brasscom. No centro da discussão, o empenho do Brasil em discutir oportunidades e o projeto de se tornar um hub de data center na América Latina, proposta reforçada, inclusive, pela presidência da república.

Esse novo perfil permitirá ao país, segundo dados da Frost & Sullivan, participar de um mercado global de US$ 84 bilhões, obtendo aproximadamente 10% deste montante. “Porém, é preciso resolver problemas de infraestrutura e vencer barreiras culturais”, disse Wortsman.

Outras questões como o medo do CIO de transferir dados e processamento para um terceiro; dificuldade de contratação de serviço de energia elétrica para o data center; custo da conectividade e disponibilidade dos serviços também foram debatidas. “A Eletropaulo, por exemplo, já nos avisou que não terá condições de atender ao nosso crescimento da demanda, no local onde estamos instalados, nos próximo três anos”, disse Alex Gilkas, da Locaweb.

A conclusão do debate foi que o País precisa se mobilizar para participar do mercado de data center global como um hub regional, sob o risco de perder, inclusive, o mercado local, mas ainda necessita resolver questões de infraestrutura e vencer receios culturais. 

A perspectiva de ser um hub latinoamericano injetaria na economia brasileira algo como 8,4 bilhões de dólares adicionais ou 10% dos 84 bilhões de dólares gerados em nível global pelo ecossistema criado em torno dos data center até 2017, segundo o gestor da Brasscom.

De acordo com ele, o País registrou, no ano passado, crescimento médio ponderado de 9,3% nessa área – 10,7% em armazenamento; e 9,9% em contingência de negócios.  “A Frost & Sullivan estima que até 2017 serão investidos 47 bilhões de reais em espaço físico, hardware, software, energia e sistemas de telecomunicações”, relata o diretor de convergência digital da Brasscon.

Parte desse valor está sendo operacionalizado pela Alog Data Center, que anunciou um aporte de 24 milhões de reais na modernização de dois dos seus sites, finalizada em março. Os maiores investimentos foram na construção de um segundo ramo de alimentação de carga elétrica, em novas instalações de ar condicionado e na duplicação de infraestrutura de energia elétrica por meio de novas entradas.

A modernização teve como objetivo oferecer aos dois primeiros data centers da Alog a mesma experiência de confiabilidade e disponibilidade que, hoje, os clientes já recebem por meio do site localizado em Tamboré, SP – e que irão receber também com a nova unidade que está sendo construída em Del Castilho, RJ”, diz Carvalho, da Alog.

Também preocupada com o fornecimento de energia, a Level 3 está aproveitando o projeto de expansão de um dos seus três 
data centers no Brasil, o de Cotia, na Grande São Paulo, para rever a rede de fornecimento. “Há uma grande dificuldade de distribuição de energia no país”, comenta Marcos Malfatti, vice-presidente sênior de Vendas da Level 3.

A companhia está instalando  a sua própria subestação de energia e linhas de transmissão para se integrar à rede da AES Eletropaulo. Uma rede de cerca de um quilômetro que custa, segundo Malfatti, alguns milhões de dólares.

“A Eletropaulo nos atende, leva energia até a susbtação mais próxima ao data center, mas tem os prazos de investimentos dela”, afirma o executivo. Para a empresa, foi mais viável fazer esse investimento do que construir um outro data center em local com maior quantidade de energia disponível.